Santo Antônio
Desde
1140 que D. Afonso Henriques, o nosso primeiro rei, tentava a conquista
de Lisboa aos Mouros, feito que só teve êxito sete
anos depois, em 1147, depois de prolongado cerco imposto aos aguerridos
Almóadas e com o oportuno apoio dos Cruzados, em número
treze mil (grande exército de homens cristãos que
vieram do Norte da Europa, rumo à Terra Santa, para expulsarem
os Muçulmanos. Usavam uma cruz de pano como insígnia,
daí o seu nome. Houve oito Cruzadas desde 1096 a 1270).
Lisboa era pois uma cidade recém-cristã, quando na
sua catedral foi a baptizar o menino Fernando Martins de Bulhões
– Santo António, filho da fidalga D. Teresa Tavera,
descendente de Fruela, rei das Astúrias e de seu marido Martinho
ou Martins de Bulhões. Há dúvidas quanto ao
apelido do pai, bem como se era ou não descendentes de cavaleiros
celtas. Sabe-se sim que D. Teresa nascera em Castelo de Paiva e
o marido numa terra próxima. Viviam em casa própria
no bairro da Sé quando o recém-nascido veio a este
mundo, no ano de 1145, embora alguns apontem como data de nascimento
1190 ou 1191.
Fernando frequentou a escola da Sé e até aos 15
anos viveu com os pais e com uma irmã de nome Maria. Aos
20 anos professou nos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho
em Lisboa, no Mosteiro de São Vicente de Fora. Nesta ordem
monástica prosseguirá os seus estudos teológicos.
Rumou a Coimbra ao mosteiro de Santa Cruz, onde tinha à
sua disposição a melhor biblioteca monacal do País.
Nesse tempo era a abadia de Cluny, em França, que possuía
uma das maiores bibliotecas da Europa, com um total de 570 volumes
manuscritos, porque ainda não tinha sido inventada a imprensa.
Aqui em Coimbra, sendo já sacerdote toma o hábito
de franciscano, em 1220. Segundo os seus biógrafos, Santo
António terá lido muito, e não foi por acaso
que se tornaria pregador.
O mundo cristão vivia intensamente a época das Cruzadas.
A chamada «guerra santa» desencadeada contra o Islão.
E da parte dos Muçulmanos dava-se a inversa, luta contra
os cristãos. Ambos acreditavam que a fé os levaria
à vitória. De Oriente a Ocidente os exércitos
batalham, e neste turbilhão surgem novas formas de espiritualidade.
Em 1209 Francisco de Assis (S. Francisco) abandona o conforto e
luxo da casa paterna, para, com outros companheiros, se recolher
numa pequena comunidade, dando origem a uma nova reflexão
sobre a vivência do Evangelho. É a aproximação
à Natureza, à vida simples e à redescoberta
da dignidade da pobreza preconizada pelos primeiros cristãos.
Em poucos anos, homens e mulheres, alguns ainda bem jovens e filhos
de famílias abastadas e poderosas sentem-se atraídos
por esta vida de despojamento e sacrifício, com os olhos
postos no exemplo de Cristo. A Portugal também chegaram ecos
deste novo misticismo.
Em Janeiro de 1220 são degolados em Marrocos, pelos muçulmanos,
cindo frades menores (franciscanos) e todo o mundo cristão
sofre um enorme abalado. A própria Clara de Assis (Santa
Clara), praticamente da mesma idade que Santo António (nasceu
em 1193 ou 1194) vai querer partir para Marrocos para converter
os sarracenos, mas Francisco de Assis seu amigo de infância
e seu orientador espiritual não lho permite.
Por cá o nosso futuro Santo António, já ordenado
padre, decide mudar de Ordem religiosa e também ele passa
a envergar o hábito dos franciscanos. È nesta ocasião
que muda o nome de baptismo de Fernando para António e vai
viver com outros frades no ermitério de Santo Antão
(ou António) dos Olivais, na altura um pouco afastado de
Coimbra, nuns terrenos doados por D. Urraca, mulher do rei D. Afonso
II.
Em meados de 1220 chegam, com grande pompa religiosa, ao convento
de Santa Cruz de Coimbra, as relíquias dos mártires
de Marrocos e esse acontecimento vai ser decisivo no rumo da vida
de Santo António. Parte para Marrocos, sentindo também
ele que é chamado a participar na conversão dos chamados
infiéis. Porém adoece gravemente e não podendo
cumprir aquilo a que se propunha, teve de embarcar de regresso a
Lisboa. Só que o barco é apanhado numa tempestade
e o Santo vê o seu itinerário alterado ao sabor de
uma vontade superior. Acaba por aportar à Sicília
num período de grandes conflitos armados entre o Papa Gregório
IX e o rei da Sicília, Frederico II. Relembra-se que várias
regiões do que é hoje a Itália unificada eram
reinos independentes e este ambiente de guerras geradoras de insegurança
e perigos.
Em Maio de 1221 os franciscanos vão reunir-se no chamado
Capítulo Geral da Ordem, onde Santo António está
presente. No final os frades regressam às suas comunidades
de Montepaolo, perto de Bolonha, onde, a par da vida contemplativa
e de oração, cabe também tratarem das tarefas
domésticas do convento. Aqui os outros frades reparam na
grande modéstia daquele estrangeiro (Santo António)
e jamais suspeitaram dos seus profundos conhecimentos teológicos.
Findo aquele período de reflexão, como que um noviciado,
os frades franciscanos são chamados à cidade de Forlì
para serem ordenados e Santo António é escolhido para
fazer a conferência espiritual. E começa a falar. Ninguém
até ali percebera até que ponto ele era conhecedor
das Escrituras e como a sua fé e os seus dotes oratórios
eram invulgares.
Pelo que se sabe quando começou a falar imediatamente cativou
os outros frades e a sua vida seria a partir daquele dia de pragador
da palavra de Cristo. Percorrerá diversas regiões
da actual Itália, entre 1223 e 1225. Por sugestão
do próprio São Francisco vai ser mestre de Teologia
em Bolonha, Montpelier e Toulouse.
Quando S. Francisco morre, em 1226, Santo António vai viver
para Pádua. Aqui vai começar por fazer sermões
dominicais, mas as suas palavras tão cheias de alegorias
eram de tal modo acessíveis ao povo mais ou menos crente,
que passam palavra e casa vez mais se junta gente nas igrejas para
o ouvir. Da igreja passa para os adros para conter as multidões
que não param de engrossar. Dos adros passa a falar em campo
aberto e é escutado por mais de 30 mil pessoas. É
um caso raro de popularidade. A multidão segue-o e começa
a fama de que faz milagres. Os rapazes de Pádua têm
mesmo que fazer de guarda-costas do Santo português tal a
multidão à sua volta. As mulheres tentam aproximar-se
dele para cortarem uma pontinha do seu hábito de frade como
uma relíquia.
O bispo de Óstia, mais tarde papa com o nome de Alexandre
IV, pede-lhe que escreva sermões para os dias das principais
festas religiosas que eram já muitas na época. Mais
tarde seria este papa a canonizá-lo. Santo António
assim faz. São hoje importantíssimos esses documentos
escritos, porque Santo António com pregador escreveu pouco.
Apenas lhe são atribuídos Sermones per Annum Dominicales
(1227-1228) e In Festivitatibus Sanctorum Sermones (1230) .
Sentindo-se doente, o santo pediu que o levassem para Pádua
onde queria morrer, mas foi na trajectória, num pequeno convento
de Clarissas, em Arcela, que Santo António «emigrou
felizmente para as mansões dos espíritos celestes».
Era o dia 13 de Junho de 1231.
Depois, como é sabido, foi canonizado, em 1232, ainda se
não completara um ano sobre a sua morte. Caso único
na história da Igreja Católica. Já que nem
São Francisco de Assis teve tal privilégio.
Os santos como Santo António, há muito que desceram
dos altares para conviverem connosco, os simples mortais, que tomamos
como nosso protector e amigo. O seu sumptuoso sepulcro, em mármore
verde em Pádua, na igreja de Santo António é
o tributo do povo que o amou e é muito mais do que um lugar
de peregrinação e de oração. Através
dos séculos, a sua fama espalhou-se por todos os continentes.
No dia 13 de Junho de cada ano, Lisboa e Pádua comemoram
igualmente a passagem por este mundo de um português que pregou
a fé e morreu em Pádua. Como todos os santos é
universal.
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